A GUERRA TRAZ PAZ E MAIS COISAS

Atualizado: Fev 28

Há uma atividade que criei há muitos anos baseada em metodologia ágil de ensino e que aplico especialmente em aulas nas quais tenho como objetivo estimular a expressão, criatividade, resiliência e o improviso.


Divido a sala em dois grupos, independentemente do número de pessoas presentes, pode ser por sorteio ou por escolha dos próprios treinandos. Gosto de deixá-los livres para escolher, especialmente quando se está trabalhando comportamentos e atitudes.


Após a divisão, peço que o grupo 1 se sente de frente para o grupo 2.


Em dois pedaços de sulfite, escreva sigilosamente um tema em cada papel:


Tema 1 = O PROGRAMA DO RATINHO É INSTRUTIVO


O Programa do Ratinho é um programa exibido até o momento pelo canal de TV SBT. Chamado por muitos de “sensacionalista”, traz em sua programação variedades. Foi criado do início dos anos 90 e é apresentado por Carlos Massa, o “Ratinho”. Por que escolhi este tema? Na época em que criei esta atividade, escolhi o programa por ser muito popular e dividir opiniões: uma parte da população acha bacana, outros, de utilidade pública e outros repudiam dizendo que este tipo de programa subestima a inteligência do povo brasileiro.


Tema 2 = A GUERRA TRAZ PAZ


De cara parece absurdo, mas essa é a ideia. Escolhi como um dos temas a “guerra”, pois é extremamente polêmica e possibilita exercitar várias perspectivas.

Você poderá alterar os temas quando quiser, desde que estes tragam a polêmica, a dualidade como norteadores.


MECÂNICA DA ATIVIDADE


Dobre as folhas e peça que cada time sorteie uma. Cada grupo da vez defenderá o tema sorteado, mesmo não concordando com ele.

Faça os acordos antes de aplicar a atividade:

• O grupo da vez deverá defender seu tema mesmo não concordando com ele.

• O grupo adversário poderá concordar ou não com o que for dito.

• Não será permitido ofender ou chamar para a briga (nesta parte, costumo brincar, pois os adultos adoram estas tiradas).

• Em alguns momentos, esta atividade poderá provocar alguns desconfortos, mas faz parte do processo de aprendizagem. Afinal, como podemos aprender efetivamente em um ambiente totalmente confortável e previsível?


Após o sorteio dos temas e feitos os acordos iniciais, deixe os times conversarem, cada qual com seus respectivos integrantes, por aproximadamente três minutos.

Finalizados os três minutos, peça aos dois times que disputem “par ou ímpar” para ver quem começa defendendo seu tema.


Deixe os grupos debaterem por aproximadamente cinco minutos. Não se preocupe se as argumentações começarem “mornas”. O debate tende a esquentar conforme os posicionamentos forem sendo identificados pelos participantes.

E você, o que faz? Observa.


Realize as intervenções abaixo ao término de cada debate.

Diga aos times que o tempo acabou. Escolha apenas uma pessoa do time adversário e conduza a conversa, somente com perguntas, por aproximadamente dois minutos.

Importante ressaltar que esta pessoa escolhida pode ser aquela que você observou que contestou com mais ênfase o posicionamento do time da vez.

Uma pausa aqui para tratarmos um importante tema...


...as boas perguntas abertas poderão fazer o voluntário refletir sobre seu posicionamento, que é a premissa básica para uma interação de negociação e um poderoso exercício para aprendizagem sobre os melhores argumentos, fundamento, por exemplo, para quem trabalha com vendas ou mediação.


Abaixo descrevo as perguntas que costumo fazer durante esta atividade, mas você pode alterá-las se achar necessário. Vamos pegar o exemplo da pessoa que se posicionou contra a ideia do primeiro tema – O Programa do Ratinho é Instrutivo.

Observe atentamente os tipos de perguntas que são feitas e os momentos em que são feitas:

• Olá, fulano, agora conversaremos somente você e eu, tudo bem? (Esta pergunta é para reforçar o acordo.)

• Como foi a primeira vez em que assistiu a este programa de TV? (Certamente, para posicionar-se “contra” o programa de TV durante a atividade, esta pessoa deve pelo menos ter assistido a uma parte do Programa do Ratinho; trabalhe sutilmente esta possibilidade por meio das perguntas, mas cuidado para não soar agressivo. O desconforto do treinando é normal e necessário, sem ultrapassar os limites do respeito e o que foi acordado. Exemplo de pergunta aberta: “[...] então, em qual situação você chegou a ver o programa de TV?”.)

• O que é instrução para você? (Observe que estamos desconstruindo a afirmativa – “O Programa do Ratinho é instrutivo”. Na maioria das vezes em que apliquei esta atividade, a resposta mais comum foi “instrução é informar algo importante, mas não o que o Ratinho faz! Aquela briga toda, testes de

DNA etc.”.)

• O que é instrução para você? (Provoco um pouco mais para que o treinando reformule, repense, exercite o pensamento. Sua maior preocupação é atacar o programa e, quando faço perguntas abertas, dou oportunidade para que ele reflita sobre suas próprias convicções. Importante ressaltar que aqui não queremos defender o que é certo ou errado, queremos exercitar o pensamento!)

Observe que quando pergunto “O que é instrução para você?”, é perceptível o espanto do treinando. “Mas como assim, não estávamos falando do Ratinho?”, ele pode pensar. Aí eu digo “sim, não quero ouvir o que o senso comum diz, quero saber o que significa para você”. Em algumas aplicações, ouvi o seguinte: “Significa que vou receber uma informação...” – Bingo!

• Podemos definir a informação, por si só, como algo bom ou ruim? (Observe como essa simples pergunta pode inspirar reflexões e nos dar a profundidade na medida em que nos permitimos estar disponíveis para este “mergulho”. No dicionário do Google, instrução quer dizer “transmissão de conhecimento”. E se pensarmos que instrução é conhecimento e conhecimento é inerente à instrução? Então toda instrução gera conhecimento (?). Com base neste silogismo, é permitido a nós compor o cenário que quisermos com base nas informações que nos é oferecida.)

• Conhecimento só é conhecimento se for definido como “bom” por você”? (Na visão do participante, instrução era assim definida somente se o conteúdo fosse “bom” ou “útil”, por isso este programa não se encaixava em sua crença de que pode ser instrutivo. Repare que, ao provocar gentilmente o treinando, não me posiciono para enfrentá-lo, mas sim provocar o pensamento, orientar para a reflexão e a visão de todas as partes da abordagem, afinal fizemos um acordo sobre estes desconfortos, não é mesmo?)




• Visto que não é adequado definir conhecimento como “bom” ou “ruim”, simplesmente é conhecimento, e conhecimento é o mesmo que instrução, podemos concluir que o Programa do Ratinho é instrutivo, certo? (Após essa pergunta, não importa se há concordância ou não entre as partes. O mais importante é que fique a sensação de que há outras possibilidades, e não uma

verdade absoluta.)

O exercício do pensar é fascinante. Demanda gentileza ao mesmo tempo em que destempera a relação. E o desequilíbrio nos leva a abrir janelas e portas para novos caminhos.

Agora vamos ver como ficam os argumentos direcionados por perguntas dentro do outro tema – A Guerra Traz Paz:

• Olá, fulano, agora falaremos somente você e eu, tudo bem? (Acordos reforçados asseguram atividades com maior índice de sucesso.)

• Vamos fazer de conta que nós dois somos da Polícia Federal, podemos? (Aqui uso outra técnica para aumentar o poder de persuasão, a técnica da simulação, dramatização prevista no Storytelling – normalmente eles concordam em atuar, mas reforçam suas posições de serem “contra a guerra”. Caso isso aconteça, não há problema, o que vale é provocar a reflexão e a participação. Continue...)

• Bem, nós dois somos da Polícia Federal e fomos acionados para uma missão policial de extrema importância. Devemos flagrar um grupo de traficantes reunidos naquele prédio, logo ali no outro quarteirão (aponto para fora da janela simulando que logo ali está o mencionado prédio). Você é o comandante. Podemos prosseguir com a missão? (Colocando a responsabilidade de decisão para o aluno, proporcionamos a ele uma visão privilegiada sobre a dimensão da ideia a ser debatida sem deixar de mencionar o exercício da empatia; com a decisão em suas mãos, o aluno raramente decide não prosseguir, quer saber aonde vai dar esta história. Caso ele se negue a seguir em frente, provoque-o, colocando a responsabilidade e o dever acima de tudo.)

• Vamos combinar a estratégia. Chegando lá entraremos pela porta da frente ou dos fundos? (Os mais impetuosos decidirão entrar pela porta da frente, e os mais comedidos pela porta dos fundos. Mas isso não impacta quase nada nas considerações finais, serve mais para criar o clima.)

• OK, entraremos por esta porta então. Os traficantes estão reunidos na sala do segundo andar, conforme nossos informantes repassaram. Ao chegarmos nesta sala, encontraremos todos os maiores traficantes da cidade. Entraremos armados ou desarmados? (As decisões ficam mais difíceis a partir daqui. Os defensores da paz dirão para seguirmos sem armas, outros, aderindo ao senso comum, com armas. De qualquer forma, esta decisão leva ao “matar ou morrer”. Nós, mediadores, conduzimos para o “acabar com o problema”, afinal é a ideia que queremos defender – a de que a guerra traz a paz.)

• Caso entremos armados, e consigamos rendê-los ou aniquilá-los, concorda que esta guerra trouxe a paz neste momento?

Enfim, acredito que com estes exemplos ficou claro como podemos levar a provocação para a sala de aula e como estas técnicas são poderosas para estimular o pensamento e o senso de decisão.


OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM ATINGIDOS COM ESTA ATIVIDADE

• Implementar, nas interações com os demais colegas, o respeito aos outros pontos

de vista.

• Compreender argumentos e técnicas de negociação, demonstrando como é produtivo participar de um debate.

• Localizar, nas interações do dia a dia, oportunidades de lançar mão de um olhar empático.


Debriefing ou CAV – Ciclo de Aprendizagem Vivencial


A aprendizagem vivencial é a experimentação e ocorre quando uma pessoa se envolve em uma atividade, faz uma análise crítica e consegue extrair um significado dessa

vivência [...].

A aprendizagem vivencial é estimulada pelo educador por meio de cinco etapas: Vivência, Relato, Processamento, Generalização e Aplicação.


1ª. Vivência: é nesta fase que acontece a atividade, este é o momento no qual os participantes vivem uma experiência com a condução do instrutor. A atividade pode ser um jogo, uma dinâmica, um estudo de caso ou qualquer outra que envolva os participantes em uma possível experimentação.




2ª. Relato: esta é a fase em que os participantes compartilham, de maneira descritiva, os acontecimentos da atividade. Quais foram as percepções, os sentimentos e o clima de trabalho? O educador/instrutor pode pedir para que os participantes trabalhem com recursos que facilitam a expressão, por exemplo, carinhas de expressão, figuras, palavras-chave, baralho de sentimentos, cores, símbolos etc.

O gerenciamento do tempo nesta etapa é fundamental para que não se torne cansativo o relato dado pelos envolvidos na atividade. Caso sejam duplas ou trios, cada equipe pode compartilhar suas percepções em um ou, no máximo, dois minutos. Para turmas muito grandes, esta troca pode ser entre os próprios participantes, não havendo necessidade de expor a toda a plenária. Caso o instrutor queira, poderá solicitar a alguns voluntários que compartilhem agilmente suas percepções com toda a sala.


3ª. Processamento: este é o momento em que a presença do instrutor é fundamental. Ele conduzirá com os participantes um diálogo embasado nas experiências, nos comportamentos, sentimentos e aprendizados que a atividade proporcionou.

Esta é a fase em que o instrutor faz com que o grupo avalie sua performance na atividade, fale sobre suas dificuldades, facilidades, falhas e seus acertos. Este momento deve ser preparado antecipadamente pelo instrutor, que poderá usar um dos instrumentos, como: questionários individuais ou em subgrupo; perguntas de “alta categoria” (aquelas que vão além do sim e não); recursos visuais (símbolos, figuras, cartazes etc.); painel de apresentações (palco simulado onde os representantes das equipes expõem as conclusões).

Lembre: a aprendizagem vivencial prevê que cada pessoa passe pela experiência e forme seus próprios conceitos. O facilitador ou instrutor (conforme diz o próprio nome) não é a estrela, sua função primária é facilitar o processo de aprendizagem. Permita que o grupo brilhe e evite incluir-se com falas, palestras ou exposição de suas percepções. Este é o momento em que o instrutor fica à margem das discussões.


4ª. Generalização: é o momento em que os participantes transferem as generalizações para as situações do dia a dia e relacionam comportamentos mais assertivos. Estimule as analogias, peça aos participantes que estabeleçam semelhanças e divergências sobre o que ocorreu na atividade e o que ocorre no cotidiano.


Esta fase é a mais importante, pois faz com que as pessoas entendam os motivos daquela atividade tão lúdica e que, aparentemente, não tinha nada a ver com o trabalho ou a função de cada um.


5ª. Aplicação: por último, fala-se da aplicação dos aprendizados. Nesta fase são compartilhados os comportamentos a serem mudados e, principalmente, os que devem ser mantidos e multiplicados. É neste momento que o instrutor obtém o comprometimento do grupo através de um instrumento formal (Plano de Metas, Plano de Melhorias, Plano de Mudança, Contrato de Aprendizagem etc.).


Aplicar o método de aprendizagem vivencial é uma maneira eficaz de fazer com que os participantes possam vivenciar as experiências, ou melhor, “literalmente sentir na pele”. É sempre importante permitir que a turma possa refletir a respeito da atividade e desenvolver opiniões individuais e coletivas. Através destas reflexões, transformamos sensações adquiridas através das experiências em conceitos, que podem ser absorvidos e integrados no treinamento.


(Fonte: https://andragogiabrasil.com.br/aprendizagem-vivencial)


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